Há séries que chegam fazendo barulho, ocupam as redes sociais durante semanas e parecem destinadas a se transformar no próximo fenômeno da televisão. E há aquelas que chegam discretamente, conquistam quem se dispõe a embarcar na viagem e, quando percebemos, já estamos completamente envolvidos por seus personagens.
The Boroughs, da Netflix, pertence muito mais à segunda categoria.
Produzida pelos irmãos Duffer (de Stranger Things), a série parte de uma ideia deliciosa: e se, em vez de adolescentes enfrentando criaturas sobrenaturais, tivéssemos um grupo de aposentados descobrindo que há algo muito errado no lugar aparentemente tranquilo onde decidiram passar os últimos anos de suas vidas?
O resultado é uma mistura de ficção científica, mistério, humor, drama e nostalgia, distribuída em oito episódios. Mas, para mim, o grande diferencial de The Boroughs não está apenas na história. Está principalmente em quem conta essa história.
E que elenco!
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Alfred Molina
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Geena Davis
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Denis O’Hare
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Alfre Woodard
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Clarke Peters
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Bill Pullman
Formam um daqueles conjuntos de atores que nos fazem pensar: como é bom assistir novamente a gente que realmente sabe atuar.
Alfred Molina e Denis O’Hare: um espetáculo à parte
Alfred Molina é daqueles atores que não precisam fazer esforço para dominar uma cena. Basta aparecer.
Como Sam Cooper, um homem marcado pelo luto e pela perda, Molina constrói um personagem que começa aparentemente distante, quase deslocado daquele universo, e aos poucos vai recuperando algo que parecia ter desaparecido de sua vida: a vontade de continuar vivendo.
Há uma delicadeza enorme no trabalho do ator. Sam não é simplesmente o protagonista que precisa descobrir o mistério. Ele também precisa descobrir o que fazer com a própria existência depois de uma perda profunda. E Molina consegue transmitir isso sem transformar o personagem em alguém permanentemente melancólico.
Mas preciso destacar também Denis O’Hare.
Wally Baker poderia facilmente ter se tornado apenas o personagem espirituoso do grupo. O’Hare, entretanto, dá a ele camadas, humanidade e uma energia extraordinária. É um daqueles casos em que o ator parece estar sempre fazendo alguma coisa mesmo quando está simplesmente parado ouvindo alguém.
Molina e O’Hare, cada um à sua maneira, dão um verdadeiro show.
E é justamente isso que torna The Boroughs tão agradável: você começa querendo descobrir o que existe por trás do mistério, mas termina ficando pelos personagens.
E Geena Davis entra em cena…
E aqui está uma das grandes surpresas — embora, pensando bem, talvez nem seja tão surpresa assim.
Geena Davis continua sendo Geena Davis.
A atriz chega aos 70 anos carregando consigo uma história cinematográfica que praticamente dispensa apresentações. E a série sabe muito bem aproveitar essa memória afetiva.
Foi impossível, para mim, assistir a determinada sequência de carro sem pensar imediatamente em Thelma & Louise.
Não foi apenas impressão minha. A própria Davis confirmou que a cena remeteu diretamente ao seu filme de 1991. Em The Boroughs, ela participou de uma sequência de ação em que sua personagem precisa escapar de um carro que está prestes a despencar, chegando a realizar a cena com o auxílio de profissionais de dublês. A atriz descreveu a experiência como uma verdadeira diversão.
E é aí que os easter eggs da série ficam ainda mais gostosos.
Porque The Boroughs parece construída para espectadores que cresceram consumindo cinema e televisão nas décadas de 1980 e 1990. A série brinca com referências, atmosferas e convenções que remetem à ficção científica e ao suspense daquela época.
Há também a inevitável conversa com Stranger Things. E não poderia ser diferente: os irmãos Duffer estão envolvidos na produção. Mas existe uma inversão muito interessante: em vez da turma de crianças e adolescentes, temos uma espécie de “Scooby Gang” da terceira idade.
E funciona.
Uma homenagem àqueles que o cinema costuma esquecer
Talvez seja justamente esse o aspecto mais interessante da série.
Hollywood passou décadas dizendo que histórias de aventura, ficção científica e ação precisavam ser protagonizadas por pessoas jovens. The Boroughs olha para essa regra e responde: por quê?
Aqui, os personagens carregam décadas de histórias pessoais. Eles conhecem o amor, a perda, o arrependimento, a solidão, a velhice e a proximidade da morte. E, justamente por isso, quando precisam enfrentar algo extraordinário, a aventura ganha um peso diferente.
Não estamos apenas diante de pessoas tentando salvar uma comunidade. Estamos diante de pessoas tentando recuperar o próprio sentido da vida.
E esse é um dos elementos que a crítica mais valorizou:
A Variety, por exemplo, descreveu a série como “heartbreaking, funny and endlessly fascinating”, enquanto o Los Angeles Times destacou seu tom sentimental e sincero.
É claro que The Boroughs não é perfeita. Algumas críticas apontaram problemas de ritmo, efeitos que nem sempre acompanham a ambição da história e um roteiro que, em determinados momentos, parece simplificar demais alguns mistérios. A própria recepção do público foi mais dividida do que a crítica profissional.
Mas talvez seja justamente aí que esteja o charme.
The Boroughs não tenta ser uma nova Stranger Things. Ela pega algumas das ferramentas daquele universo — mistério, criaturas, nostalgia, amizade, aventura — e coloca tudo nas mãos de personagens que normalmente seriam colocados no canto da história.
E a audiência?
Aqui existe uma história curiosa. A série não foi um fracasso de audiência. Muito pelo contrário.
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Primeira semana completa: alcançou o 1º lugar entre as séries em inglês da Netflix, com 9,5 milhões de visualizações (após estrear em 2º lugar com 5,6 milhões).
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Total acumulado: acumulou mais de 130 milhões de horas assistidas e 20,8 milhões de visualizações completas durante suas quatro semanas no Top 10 global.
Então, não: eu não colocaria The Boroughs entre as minisséries mais assistidas de todos os tempos da Netflix.
Mas existe uma ironia aí: a série conseguiu chegar ao topo do ranking semanal e teve uma recepção crítica bastante positiva — e, ainda assim, acabou não encontrando o público necessário para justificar sua continuidade.
E isso talvez torne a experiência de assistir aos oito episódios ainda mais curiosa.
O prazer de assistir a atores que sabem exatamente o que estão fazendo
No fim das contas, talvez seja essa a melhor definição para The Boroughs. Ela é uma série sobre monstros, mistérios e coisas inexplicáveis. Mas, acima de tudo, é uma série sobre pessoas.
E que pessoas!
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Alfred Molina entrega uma atuação cheia de nuances.
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Denis O’Hare transforma Wally em um personagem impossível de ignorar.
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Geena Davis mostra que continua dona de uma presença cinematográfica impressionante.
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Alfre Woodard e Clarke Peters acrescentam humanidade e emoção.
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Bill Pullman aparece menos do que poderíamos desejar, mas deixa sua marca.
O elenco é, sem dúvida, o coração da produção.
E talvez seja por isso que, quando os oito episódios terminam, a sensação que fica não é simplesmente “quero saber o que vai acontecer”. A sensação é: “Eu queria passar mais um pouco de tempo com essas pessoas.”
E isso, para mim, é uma das maiores qualidades que uma série pode ter.
The Boroughs pode não ter se transformado no fenômeno que a Netflix talvez esperasse. Pode ter suas falhas, seus exageros e seus momentos de roteiro menos inspirados. Mas tem algo que nenhuma estatística consegue medir com precisão: carisma.
E, quando Alfred Molina, Geena Davis e Denis O’Hare estão em cena, carisma definitivamente não falta.





